Muitas pessoas sentem-se perdidas hoje em dia, pelo fato de que existe uma pressão social muito forte para seguir um modelo considerado certo, que é “ser magro”.
A aparência é tida como uma prioridade absoluta. As pessoas têm necessidade de brilhar, de parecerem “espertas”. E “brilha” quem é jovem e magro, porque ser magro e ser jovem pode ser sinônimo de ganhar dinheiro, ser amado, disputado, requisitado. É isso que a mídia vende e é nisso que a gente acaba acreditando. E assim estará aberta a trilha para o enriquecimento dos que se dispõem a vender o impossível. Para isso vale tudo. Valem todas as tentativas para tentar se enquadrar nesse modelo.
Mas esses mecanismos de exigência de magreza, de perfeição física, têm um caráter de desumanização que nós não podemos ignorar. Por falar em desumanização, a gente que vive em cidade grande vive praticamente ilhado. Não dá para soltar os filhos por aí, tem que andar de tênis velho, se não vai ser roubado, tem que dar algum dinheiro para o ladrão, mas não pode dar muito, porque o prejuízo vai ser grande.
Os prédios parecem cada vez mais jaulas e as crianças estão cada vez mais engaioladas. Não saem, não praticam esportes, não têm onde brincar, não têm onde passear e ficam em casa. E ficar em casa significa assistir televisão, jogar videogame, brincar no computador, é um sedentarismo que leva à obesidade. Ao mesmo tempo a televisão e todos os meios de comunicação estão sempre incitando, principalmente as crianças, a comprarem guloseimas, alimentos açucaradas, fast-food, enfim, tudo aquilo que parece gostoso e de digestão rápida. E as crianças pressionam os pais. Pais que freqüentemente se sentem culpados porque trabalham o dia inteiro, porque não podem dar às crianças as condições que acham ideais. O que os pais fazem? Eles acalmam a própria consciência dando aquilo que a criança quer.
Então a gente tem que apelar para as mágicas para ficar de acordo com aquilo que se espera. Sair atrás do remédio anti-obesidade da moda, do antidepressivo, de preferência algum “natural”. O corpo que eu “sou” começa a se transformar em “coisa”, para a qual eu tenho que prestar certos serviços e colocar certos aditivos. O corpo humano é encarado com uma espécie de máquina ou de utensílio que requer um serviço: “Eu tenho que fazer alguma coisa para que ele fique com aparência adequada, para que dure o máximo possível em condições de uso”. Uma vez uma cliente nova queria, de alguma forma, me entregar seu corpo para um serviço. Ela queria me entregar o corpo para daqui a duas semanas eu devolvê-lo bonito, magro, sem estrias, sem celulite etc. Fiquei tão espantado que lhe disse "você pensa que eu sou marceneiro?"
Uma das conseqüências do medo da obesidade é o fato de as mulheres, principalmente, irem para a anorexia ou bulimia. Dizem que “o negócio é fechar a boca” e elas levam este mandamento de forma literal, não simbólica. Para elas, fechar a boca é não comer nada. Evidentemente acabam caindo numa doença e muitas delas acabam morrendo de fome na frente de um prato de comida. Que foi o caso da cantora Karen Carpenter, da dupla The Carpenters.
Ou então apelam para a bulimia, onde se usam laxantes e vomitivos para permanecer magro. Uma pessoa que atendi tinha acessos de compulsão alimentar em que ela se pesava e começava a comer; o peso imediatamente subia. Daí ela ia vomitando, vomitando e se pesava novamente. Fazia uma série de oito a dez vômitos seguidos até voltar ao peso de antes de começar a comer. Praticamente ela comia e vomitava ao lado da balança.
A idéia que prevalece é de fazer regime o dia inteiro. Mas é muito interessante que o regime, em geral, dura até as cinco, seis horas da tarde, que por coincidência é a hora do crepúsculo, a hora do lusco-fusco, que não é nem dia nem noite, o farol do carro funciona e não funciona, você enxerga, mas não enxerga bem. Parece que nessas horas os “fantasmas” saem. È a hora que os fantasmas aparecem e o regime é completamente esquecido, e elas comem tudo que vêem pela frente. Este fenômeno já está acontecendo com os homens, porque os homens também estão sendo muito cobrados em função do corpo que precisam exibir. Nos compulsivos existe um grande remorso. Eles comem e morrem de sentimento de culpa. Não é um prazer. É uma angústia tremenda. A culpa aperta, e a pessoa fica muito angustiada; ela vai e come de novo. E o circulo se perpetua. Então, ela compra livros de auto-ajuda, compra o que a mídia quiser vender. Ela chega a colocar um copo de água em frente ao seu computador porque está ouvindo pelo rádio uma missa e aí o pastor abençoa o copo “para que os seus desejos aconteçam”. Tudo isso está à venda, basta querer.
É preciso que se faça um trabalho a médio e em longo prazo com as crianças. Um trabalho a ser feito nas escolas. Da mesma forma que existem aulas de educação sexual, de educação religiosa, é necessário haver aulas de educação alimentar, como forma de ensinar cidadania, para que as crianças não caiam nesses contos e impeçam seus pais de caírem. No caso específico da alimentação, se as crianças aprenderem a comer na escola elas chegarão em casa e vão dizer “mãe eu aprendi na escola que só se pode consumir batata frita e refrigerante no máximo uma vez por semana, porque não é bom para a saúde”.
As escolas não querem esse tipo de responsabilidade. Mas elas têm que aceitá-la, porque as famílias não sabem fazer isso. E o pior é que se olharmos as cantinas das escolas, na maioria só existe junk food. Então, é preciso fazer um esforço conjunto de professores e alunos. A escola precisa tomar conta da cantina, que ocupa um espaço geográfico lá dentro, mas um espaço dentro do contexto educacional. Vai-se, assim, educar as crianças, para que elas eduquem os pais. O contrário disso, embora possa parecer mais lógico, até hoje se revelou um fracasso.
Docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e coordenador da disciplina de graduação “Psicologia Médica”.
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