Será que nosso corpo necessita, ou é a nossa mente que vence?
Pude acompanhar o depoimento de algumas internautas que manifestaram a dificuldade que têm em controlar os impulsos alimentares à noite. O que elas relatam é que, cada uma, ao seu modo, está entrando na “night eating syndrome” ou “síndrome do comer noturno”. Esta síndrome é de certa forma um exemplo de compulsão alimentar. O que nós chamamos de “compulsão alimentar” (ou “binge eating”) é o fato de a pessoa comer uma grande quantidade de comida calórica num curto espaço de tempo, e, para complicar, a sensação de que é impossível parar, é impossível controlar. No final da crise vem, quase sempre, um arrependimento e um terrível sentimento de culpa, por achar que está “estragando” a dieta, “agredindo” o próprio corpo, etc.
Algumas questões precisam aqui ser consideradas, por quem sofre do problema. A primeira é que o “comer noturno” acontece com mais frequência em pessoas que estão em dieta. Parece estranho? Mas é assim mesmo: quanto mais restritiva a dieta, quanto menos a pessoa come durante o dia, mais vai comer à noite, sobretudo carboidratos, pois ocorre um desequilíbrio envolvendo os hormônios ligados à alimentação e também os neurotransmissores. A “night eating syndrome” é caracterizada por anorexia matinal (não comer nada de manhã) + insônia + hiperfagia (comer demais) do entardecer ou noturna. Ela é uma combinação de transtorno alimentar, distúrbio do sono e distúrbio de humor.
Uma segunda questão é a psicológica. Vocês já perceberam que existe gente que está eternamente em dieta? E que nunca chega a alcançar seus objetivos? São pessoas que não têm outro assunto a não ser “comida”: falam em comida o dia todo, não importa com quem estão conversando. Se você só pensa e fala sobre um único assunto, de certa forma você fica viciado (a) naquele tema. E acaba sendo difícil de “desapegar” dele e pensar em outra coisa.
O que acontece com muita frequência é que esta pessoa – movida por um grande entusiasmo – emagreça até rapidamente no início, surpreendendo a família e aos amigos pela sua força de vontade e por sua aparência feliz, aparência de quem está ganhando um jogo. Porém, à medida que já está “quase chegando” no seu objetivo final – no nosso caso chegar ao peso desejado – parece que lentamente ela vai abandonando o rigor inicial, começa a “premiar-se” com doces, em homenagem ao sucesso que está sendo conseguido, e pouco a pouco, vai voltando ao padrão antigo de estilo de vida (para o que muitas vezes conta com a “ajuda” de parentes e amigos).
Por isso, não adianta fazer dieta de forma “heróica” e restritiva. Na verdade, muita gente que faz dieta deste modo está, na verdade, sendo compulsiva não na comida, mas no regime. Leva a questão de forma tão rígida, que acaba não suportando depois de algum tempo. Afinal, quem consegue comer filé de frango com alface todo santo dia? Chega uma hora em que a cabeça não agüenta e pede “chocolate pelo amor de Deus!”.
Para o emagrecimento ideal é preciso cuidado e planejamento, com orientações sérias e personalizadas, assim como o Programa de Reeducação Alimentar do Site Emagrecendo preza, por meio de refeições balanceadas que suprem as necessidades, bem como o fracionamento correto das refeições, o que beneficia a saciedade. E os resultados satisfatórios envolvem, além da alimentação adequada, a prática regular (se possível diária) de atividade física (qualquer uma, desde que você goste e se envolva); e, por fim, destaco o cuidado com a vida emocional, pois é muito comum a comida (sobretudo massas e doces) ser utilizada como uma espécie de tranqüilizante ou de antidepressivo.
Portanto, independente se estão de dieta ou não, algumas pessoas podem usar o doce como uma forma de se sentir mais amado(a), mais acolhido(a), mais reconhecido(a), e acabar adotando esse doce como namorado(a) ou amante, e daí... Adeus educação alimentar! Se for esse o seu caso, um acompanhamento médico e psicoterápico pode também ajudá-lo(a) a não deixar a comida como “centro” de sua vida, e você vai acabar descobrindo formas mais saudáveis de suprir tais necessidades emocionais.
Docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e coordenador da disciplina de graduação Psicologia Médica.
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